jesus anti-édipo
há, dentro dos evangelhos e da figura de cristo, uma complexa relação com a família. suas passagens dignas de um “anti-édipo” avant la lettre ocorrem com tamanha frequência — e de maneira aparentemente tão fortuita — que me espantaram e me moveram a compilá-las brevemente.
a centralidade da família nuclear, a valorização de maria, sua mãe, e tudo o que o catolicismo tão violentamente impõe em torno disso causam espanto imediato para quem se depara, por exemplo, com lucas 14:26:
“se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo.”
dentro da vida em cristo (o filho do homem, como ele próprio se denomina), esse rompimento com os padrões familiares é uma exigência necessária como em qualquer outro contexto de convocação revolucionária. pois é isto a defesa de cristo: a revolução. e não digo isso como uma interpretação teológica extravagante, mas como algo elementar se analisarmos o sermão da montanha e seu adágio (“mas, em verdade, vos digo”). a missão de cristo ali é destituir a velha lei e instaurar um novo reino — e esse reino não é adiado para depois: “o reino de deus está dentro de vós” (lucas 17:20), já instaurado pela prática.
também os bens materiais e o dinheiro entram nessa ruptura. em mateus 19:21: “se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.” ou ainda em lucas 9:3: “nada leveis para o caminho: nem cajado, nem alforje, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas.” e a própria comunidade em cristo deve ser comunista (no sentido de uma partilha comum): “todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. vendiam suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.” (atos dos apóstolos 4:32 em diante)
não muito diferente de alguns movimentos feministas dos anos 60/70 e para os hippies, que viam na família nuclear o esteio de uma velha e reacionária ordem a ser derrubada, cristo insiste nesse rompimento repetidas vezes:
lucas 9:59–62 — jesus diz a um homem: “segue-me.” ele responde: “senhor, permite-me primeiro ir sepultar meu pai.” jesus: “deixa que os mortos sepultem os seus próprios mortos; tu, porém, vai e anuncia o reino de deus.” e a outro, que queria despedir-se da família: “ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o reino de deus.”
lucas 8:21 — “minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de deus e a praticam.”
mateus 10:34–36 — “não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. vim pôr em divisão o filho contra seu pai, a filha contra sua mãe… os inimigos do homem serão os de sua própria casa.”
assim, ele realiza esse deslocamento constante: da família biológica para uma comunidade fundada pela prática comum, para uma nova vida escolhida (sendo essa o caminho para a Vida eterna).
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